18 de junho de 2010

O louco e Saramago



Conheci José Saramago por acaso. Foi um período em que minhas tardes eram preenchidas com longas horas de leitura na Biblioteca Pública. Sentava sempre na mesma cadeira, que ficava no canto do salão central. Assim via tudo, sem ser visto. Aquela era minha mesa. Aquele era o meu mundo, que me mantinha contente diante de uma realidade conturbada.

Um determinado dia, um esquizofrênico passou a dividir o espaço. Sentava na ponta da mesa, sempre vestido com um blazer ou um terno com colete. Falava sozinho. Lia em voz alta textos originais de diversos autores, como Baudelaire, Dickens, Edgard Allan Poe, Arthur Conan Boyle, Esópo, Itálo Calvino, Vargas Llosa, Eugene Ionesco além de alguns escritores malditos, Kerouac. O louco era fluente em tudo, poliglota.

Cada livro deixado na mesa era devorado por mim. O louco foi o meu guia para diversos autores desconhecidos. Um deles foi José Saramago. O primeiro livro que peguei foi In Nomine Dei. Jamais esqueço deste xeque-mate contra as religiões. Durante três meses,
José Saramago me acompanhou, até a minha aprovação no vestibular de Jornalismo.

Saramago fez parte de minha história. Gostava de seus textos, mas não de suas opiniões. Fará falta, como ainda me faz o louco da biblioteca.

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.


(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)

Um comentário:

Daiana disse...

Que incrível essa história! Vários foram os posts por aí, espalhados em blogs diversos, falando da falta que já faz Saramago. O seu, porém, foi o texto com o qual mais me identifiquei. Lindo, lindo!
E isso de "ssim via tudo, sem ser visto" me arrancou um riso desses de canto de boca...
Grande abraço, Israel! Saudade!!!

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