25 de janeiro de 2010

Dona Helena


Minha primeira entrevista foi com Helena Kolody. Era 1992 ou 1993. Tinha recebido uma pauta cultural para o jornal laboratório. Gravador na mão, máquina fotográfica, três canetas e caderno, cheguei às 10h, carregando um vaso de violetas. Achei fácil o prédio ao lado da praça Rui Barbosa, por onde se via toda a movimentação de ônibus e passageiros.

Nem bem cheguei, entreguei a flor e ela sorriu, como professora que recebe um presente. Colocou a violeta na estante e me ofereceu dois licores: "Tem amaretto e hortelã!". Apenas sorri e sacudi a cabeça, recusando. Era muito cedo para beber. Mesmo assim, ela ameaçou servir uma taça, mas interrompeu o gesto. Foi para outro lado da sala e sentou afastada.

Não tinha me preparado para entrevista, sabia o básico, por isto foi uma saraivada de superficialidade. A obviedade cansou. Ela levantou-se e ofereceu novamente licores. Era muito esforço para quem tinha mais de 80 anos. Recusar duas vezes seria deselegante, mesmo sendo tão cedo. Peguei a taça, senti o cheiro do amaretto dell orso e molhei os lábios, quase sem beber. Um silêncio acompanhou a bebida.

Ela se ergueu e foi até perto da janela. Um olhar triste apontou para a praça. "Esta praça já foi bonita. Agora é uma selva de concreto. Do verde, só me resta sua flor para lembrar minha infância", disse chegando perto.

Como se eu não estivesse lá, falou e falou. Contou de um antigo amor. Queixou-se da recente morte do irmão. Disse da sensação de abandono que sentia. Do medo da morte. Falou até de uma aluna que leu um de seus poemas e depois desistiu de se suicidar. " Por isto, acho que escrever é uma responsabilidade! Não escrevo sobre coisa ruim. Pode prejudicar alguém. Na verdade ,estou cansada de escrever!", disse voltando os olhos para a realidade.

Ficou me fitando e aproveitei para tirar algumas fotos. Ela pediu licença e foi até uma estante, onde pegou um livro. Autografou. Sorriu e, antes de encerrar a entrevista, pediu: "Acho que a última parte ficou ruim. O melhor seria que não tivesse sido gravada", disse, sorrindo triste.

Tirei nota 7,5 na entrevista. Apaguei a melhor parte, cheia de confissões e lembranças. Decidi que o melhor era ser cúmplice daquela confissão. Aquele sorriso e a dose certa de amaretto amoleceram meu coração. Até hoje, guardo a foto que tirei daquele encontro.

Um comentário:

Daiana disse...

Que lindo relato, Israel!
Belíssimo!
Outra coisa bela é quando a gente se surpreende com os talentos de uma pessoa... Estou supresa com este seu outro (entre tantos) talento revelado...
Grande abraço!

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