29 de janeiro de 2010

Futuro

O que aconteceu com meu passo? Ele está tão diferente De repente, tudo mudou. O que sabia não é mais o mesmo. O que temia não tem mais valor. Outros medos surgiram, outras certezas apareceram, outro futuro se descortinou.

Uma nova dimensão de vida surgiu. Sou o mesmo? Não cresci, mas vejo sob nova perspectiva. Não fiquei mais inteligente, mas alguns caminhos se tornaram lógicos. Meu sonho se torna realidade?

Ser um novo pode ser resultado da mudança de olhar. Diz o ditado popular que o mundo muda conforme o cristal que se olha. Mas não é um cristal que está em meus olhos. São novos sentimentos que rodopiaram minha a vida.

O dia de ontem me parece distante e o futuro mais grandioso. Larguei tudo, como um viajante sem eira e nem beira. Arranquei raízes e estou migrando, sem ter sentido dor da mudança. Porque não fiz isto antes? Sou outro e até me esqueci quem era.

Mas se perdi minhas memórias, será que não sou o mesmo, apenas fantasiado de outro?

A notícia

A carta chegou. Quem tem a coragem de abrir? Há tanta ansiedade e espera pela notícia! Tudo está misturado: medo, curiosidade, alegria e aflição. Ela virou e pediu: "abre". Ele pegou com se fosse uma cobra e ficou parado. "Por favor, abre logo", suplicou a mulher.

A notícia mudaria a vida. Pensou em tudo que fez e respirou. Em um gesto louco, amassou o envelope e jogou no vaso, puxando a descarga. Ela gritou, xingou e chorou. Ele se virou e foi embora: "Em breve,vamos saber a verdade. Só esperar mais um pouco", disse indo pela porta a fora, aliviado.

28 de janeiro de 2010

Comunicação e poder

Gostei deste vídeo. Ainda que a conclusão seja óbvia, é preciso ressaltar a importância da liberdade da imprensa e a necessidade profissionais cada vez mais preparados. Ele avalia a grande concentração de poder econômico na gerência da comunicação e o crescimento de mídias alternativas, como a internet. Também questiona esta tão famigerada liberdade da internet.

Veja e tire sua conclusão.

26 de janeiro de 2010

O belo



Sua paixão é toys arts, pequenos bonecos criados por artistas plásticos. Tem um antigo armário de farmacêutico cheio deles. É uma botica de delicadeza. Cada um tem modelo e cor diferentes. Todos arrumados lado a lado pelos seus grossos dedos, com unhas roídas. Delicados são mexidos geometricamente dentro do armário. Um caleidoscópio de beleza.

Tal como os bonecos, o dono é a sensibilidade em forma bruta. Esta é a melhor definição para o meu irmão - Oscar Reinstein.

Quem acessar o seu flick ficará impressionado com a beleza dos traços ou a delicadeza das logos e das artes. Sua criação grita, com letras sangrando ou saltando das palavras. Outras vezes seus traços murmuram. Nas suas galerias de criação, podem ser encontrados desenhos, com personagens criados por ele. Acho que todos poderiam se transformar em toys arts. Tal como o da foto desta matéria.

Recentemente fez o design do livro de Aramis Milarch. Foi responsável pela criação gráfica do projeto que resgata a memória do escritor. Este amante da Madonna agora está metido em um grande projeto. Será um desafio, no qual terá que domar sua ansiedade. Mas tudo indica que dará conta do recado.

Robôs


Quando era moleque sempre quis ter um robô de brinquedo. Sonhava com um robô como o da Família Robinson, da série Perdidos no Espaço. Queria um brinquedo que pudesse dar corda e se movesse com aquele meneio típico dos homens de lata. Jamais tive. Afinal era o filho do meio de uma família com quatro crianças. Quem nasceu em família grande de classe média sabe que os brinquedos e roupas passam do irmão maior para o menor. Assim, com exceção dos aniversários,onde se ganham presentes diferentes, todos os demais brinquedos são coletivos.

Acabo de ver na internet, no blog Update or Die!, um orfanato de robôs. Os brinquedos são criados pelo artista plástico Brian Marshall - Wilmington, DE. Ele cria os robôs com produtos que encontra pela rua.

Os robôs são vendidos no site Etsy, com custo que varia de 150 a 200 dólares. Quem quiser saber mais de um produto da linha Adopt-a-Bot, pode ver outros modelos neste link.

25 de janeiro de 2010

León Gieco

León Gieco. Este cantor argentino me traz uma alegria particular. Quem me apresentou foi uma pessoa muito querida, que visitava o Brasil, após anos em Buenos Aires. Um antiga fita cassete tocava sem parar em um walkman amarelo. A pessoa foi embora e deixou León Gieco de recordação.

As músicas cansaram e a fita cassete ficou guardada. Anos mais tarde, redescobri León Gieco, após um período conturbado. Tinham desmoronadas todas as minhas certezas. Quando esvaziava uma caixa, este argentino cantou na hora certa. "Cola de Amor" foi uma música repetida incessantemente. Ou melhor, um refrão erguia meu ânimo: "Para poder seguir tengo que empazar todo de nuevo". E recomecei tudo outra vez.

Hoje, em outra fase (muito melhor e feliz), encontro com ele, falando músicas de amor e de filhos. Ele tem um tom meio melancólico. Escolhi este clipe, que é um protesto contra a morte injusta de um jovem. Mas há outras músicas mais suaves e tão interessantes.

Muchas salud, León Gieco!


El Angel de la Bicicleta
Leon Gieco
Composição: Leon Gieco
Cambiamos ojos por cielo
Sus palabras tan dulces, tan claras
Cambiamos por truenos
Sacamos cuerpo, pusimos alas
Y ahora vemos una bicicleta alada que viaja
Por las esquinas del barrio, por calles
Por las paredes de baños y cárceles
¡bajen las armas
Que aquí solo hay pibes comiendo!
Cambiamos fe por lágrimas
Con qué libro se educó esta bestia
Con saña y sin alma
Dejamos ir a un ángel
Y nos queda esta mierda
Que nos mata sin importarle
De dónde venimos, qué hacemos, qué pensamos
Si somos obreros, curas o médicos
¡bajen las armas
Que aquí solo hay pibes comiendo!
Cambiamos buenas por malas
Y al ángel de la bicicleta lo hicimos de lata
Felicidad por llanto
Ni la vida ni la muerte se rinden
Con sus cunas y sus cruces
Voy a cubrir tu lucha más que con flores
Voy a cuidar de tu bondad más que con plegarias
¡bajen las armas
Que aquí solo hay pibes comiendo!
Cambiamos ojos por cielo
Sus palabras tan dulces, tan claras
Cambiamos por truenos
Sacamos cuerpo, pusimos alas
Y ahora vemos una bicicleta alada que viaja
Por las esquinas del barrio, por calles
Por las paredes de baños y cárceles
¡bajen las armas
Que aquí solo hay pibes comiendo!

Dona Helena


Minha primeira entrevista foi com Helena Kolody. Era 1992 ou 1993. Tinha recebido uma pauta cultural para o jornal laboratório. Gravador na mão, máquina fotográfica, três canetas e caderno, cheguei às 10h, carregando um vaso de violetas. Achei fácil o prédio ao lado da praça Rui Barbosa, por onde se via toda a movimentação de ônibus e passageiros.

Nem bem cheguei, entreguei a flor e ela sorriu, como professora que recebe um presente. Colocou a violeta na estante e me ofereceu dois licores: "Tem amaretto e hortelã!". Apenas sorri e sacudi a cabeça, recusando. Era muito cedo para beber. Mesmo assim, ela ameaçou servir uma taça, mas interrompeu o gesto. Foi para outro lado da sala e sentou afastada.

Não tinha me preparado para entrevista, sabia o básico, por isto foi uma saraivada de superficialidade. A obviedade cansou. Ela levantou-se e ofereceu novamente licores. Era muito esforço para quem tinha mais de 80 anos. Recusar duas vezes seria deselegante, mesmo sendo tão cedo. Peguei a taça, senti o cheiro do amaretto dell orso e molhei os lábios, quase sem beber. Um silêncio acompanhou a bebida.

Ela se ergueu e foi até perto da janela. Um olhar triste apontou para a praça. "Esta praça já foi bonita. Agora é uma selva de concreto. Do verde, só me resta sua flor para lembrar minha infância", disse chegando perto.

Como se eu não estivesse lá, falou e falou. Contou de um antigo amor. Queixou-se da recente morte do irmão. Disse da sensação de abandono que sentia. Do medo da morte. Falou até de uma aluna que leu um de seus poemas e depois desistiu de se suicidar. " Por isto, acho que escrever é uma responsabilidade! Não escrevo sobre coisa ruim. Pode prejudicar alguém. Na verdade ,estou cansada de escrever!", disse voltando os olhos para a realidade.

Ficou me fitando e aproveitei para tirar algumas fotos. Ela pediu licença e foi até uma estante, onde pegou um livro. Autografou. Sorriu e, antes de encerrar a entrevista, pediu: "Acho que a última parte ficou ruim. O melhor seria que não tivesse sido gravada", disse, sorrindo triste.

Tirei nota 7,5 na entrevista. Apaguei a melhor parte, cheia de confissões e lembranças. Decidi que o melhor era ser cúmplice daquela confissão. Aquele sorriso e a dose certa de amaretto amoleceram meu coração. Até hoje, guardo a foto que tirei daquele encontro.

24 de janeiro de 2010

Perdidos

O que fazer? Não sabia sequer lhe dar o banho. O calor da água que um dia aconchegou a intimidade, agora escorria o embaraço. Estão perdidos? Pelo jeito, a vida seguiu pelo ralo e ficaram dois corpos. E a água escorre morna...

20 de janeiro de 2010

Bashert


Até hoje o beijo é tão especial, como foi o primeiro toque de lábios. Parece exagero ter tais sentimentos perto de oito anos de convívio. Mas beijar, tocar, cheirar, sentir seu corpo e seu calor são momentos tão únicos, tão nossos.

A música acima de Ari Gold tem um termo que traduz bem esta realidade. Bashert é uma palavra em íidiche que poderia ser traduzida como alma gêmea. Reza a tradição judaica que todo homem e mulher tem uma alma que complementariam outra, que foram subdividida, quando Moisés recebeu as tábuas da lei.

Não sei quanto tempo estamos esperando para se encontrar. Mas tenho certeza que os beijos ainda são quentes e a vida é tão luminosa como o primeiro dia. Basherte, ani ohev otach. - אני אוהב אותך

A bailarina



O que aconteceu com a bailarina? Será que enlouqueceu? Ninguém vê mais os seus demi-plié, arabesque e sissone. Onde foram parar suas piruetas. O palco esvaziou. No tablado, já não se ouvem as suas calorosas gargalhadas e nem tampouco seus cabelos loiros e cacheados.

De repente, sem mais e nem porque, já não quis mais ser a Isadora Ducan Tupiniquim e agora é a La Pasionara dos Pinheirais. Pelo jeito até que esqueceu a música de Chico Buarque. Já deve ter pulga atrás da orelha, remela e marca de bexiga.

Dizem que os palcos agora são outros. Trocou a sapatilha pela caneta. Os músculos não se contorcem a cada nota da música. O esforço é por projetos, que possam mudar o mundo, em especial, o dos desválidos. Equilibra-se

Porém, no seu íntimo, quando acorda pelas manhãs, o sonho de bailarina ainda brilha. Parece que até arrisca um passé diante do espelho, antes de se arrumar para mais um dia de luta.

Tsedaká


O governo de Israel montou no Haiti um dos maiores hospitais de campo, para atender mais de 5 mil pessoas ao dia. Na delegação israelense, 220 homens e mulheres, entre socorristas, médicos, equipes especializadas em resgates, que ajudam aos haitianos, desde o primeiro dia da tragédia.

Muitos destes homens sequer falam uma palavra em francês, muito menos possuem qualquer vínculo com o povo haitianos. Mas estão cumprindo um ato, que na tradição judaica se chama Tsedaká. Confundida como caridade, a sua tradução mais correta desta palavra em hebraico é "justiça" ou "retidão". Esta palavra traduz o ato que supera a simples generosidade e que busca a melhoria das pessoas.

Este gesto é uma tradição do povo judeu, que é praticado silenciosamente, cada dia da semana, por milhares de judeus espalhados pelo mundo. Tsedaká está impregnada na cultura judaica e na vidas dos israelenses. Em um mundo acostumado a ver Israel, como um vilão, em função dos conflitos árabes-judaicos, poucos sabem que equipes israelenses sempre ajudam nas catástrofe, silenciosas e eficientemente. Lá estavam no terremoto em Gujarat na Índia em 2001 e na Turquia, nos bombardeios do Quênia. Israel tem sido um dos mais generosos doadores de ajuda.

Pena que estes atos são poucos divulgados na mídia, que gosta de mostrar apenas um lado de Israel

19 de janeiro de 2010

Paixão à cega

Esbarraram. Ele sentiu primeiro o perfume, depois o cheiro do corpo. Estavam tão próximos. Arriscou com as pontas dos dedos. A pele era suave. Pediu desculpa e emendou um convite para passear. Iriam lado a lado, para conversar. Engancharam braços, desarmaram as bengalas e foram, tateando o chão ao som do silêncio dos tímidos.

17 de janeiro de 2010

Oba! É a hora da comida!


Um é jornalista. O outro é músico. A paixão é comum: comida. Não se conhecem, mas acredito que seriam bons amigos. São dois prosadores, com características diferentes, mas bons prosadores. Além disto, são pessoas do bem.

Edson Vieira tem o "Blog do Edson". Na maioria das vezes, seu texto é mais saboroso que o prato indicado em algum restaurante e bar da cidade e do mundo. Descreve locais e diálogos, os quais vivenciou, como uma Nina Horta das crônicas gastronômica curitibana. É um brinde a literatura, com muito sabor.

Com texto menos sofisticado (mas do mesmo jeito saboroso) é o Oba Gastronomia. O site é cheio de receitas (que receitas!) e dicas, além de fotos dos pratos feitos por este músico e chef de cousine. Para quem gosta de comer, vale a pena ver como Orlando Baumel traz a melodia da música aos temperos da comida. O resultado é maravilhoso, mas só provando para saber.

16 de janeiro de 2010

Era uma vez...


Este texto poderia começar com "Era uma vez...". Afinal é a história de amor entre o dragão e o cachorro. Há inclusive uma fada madrinha, ou melhor, uma bruxa boa, pois acho as fadas enfadonhas.

Ela é a majestosa e bela dragão. Ele é um gordo cachorro. Quando se conheceram, o cão mancava pelos maus-tratos da antiga dona. Já a dragona (que termo feio para tão bela espécie) tinha profundas cicratizes de uma dura vida. Ambos ainda se lambiam, tentando curar as feridas.

Foi em Valentine´s Day que ficaram juntos. Mas, antes de atropelar a história, vale lembrar que o dragão e o cachorro se encontraram nestas sincronicidades junguianas, que mudam vidas.

Ele foi trabalhar onde ela estava. Foi porque a vida fechou diversas portas, abrindo propositalmente apenas uma. A boa bruxa Welte percebeu (como sempre percebe e entende os truques da vida) que - mesmo diferentes - um era perfeito ao outro.

Esperta, a bruxa chegou ao cão e disse: "Olha tem alguém de olho em você". Meio burro, o cachorro teve que farejar muito para perceber o óbvio. Fez o mesmo com o Dragão, que mergulhou de cabeça no alvo. Só se entenderam em Valentine´s Day, em frente da loja do AU-AU. Outra vez, lá vem Jung.

O encanto da bruxa mantém seu efeito e parece ser permanente. Por enquanto, ainda não dá para dizer que viveram felizes para sempre, pois este é apenas um capítulo de um grande livro a ser escrito.

* Ah! O cão e o dragão adoram o horóscopo chinês!!!

Ao mister Parkinson


Ali ficou seu passo.Balanceou e resmungou: Mister Parkinson está incomodando de novo!

Foi uma maratona entre a sala e o banheiro. Respirou. Era o fôlego do atleta exaurindo, esticando a mão em busca de uma parede que o apoiasse. Depois riu, chegando enfim ao destino. Vitorioso, dentro do banheiro, pode se ouvir a eterna fala: Ah, mister Parkinson... preciso de paciência e bom humor.

Paciência teve, mas bom humor...nem sempre a vida lhe deu. Ainda mais agora, que enfrentava desafios maiores que suas aventuras na juventude. Um dia fugiu da casa dos pais, com uma pequena mochila, cruzou mares, escapou dos bloqueios ingleses e, aos 17 anos, lutou por Eretz Israel. Foram cinco anos, em que um jovem virou homem. No caminho de volta a mochila estava pesada. Era tanto peso nas mãos e no coração, marcados pela avermelhada recordação que guerra deixa em seus sobreviventes. Jamais voltou a rezar com fé na sinagoga.

Ainda assim,fez famílias, fez filhos e teve netos. Todo mudo reconstroi, mesmo sobre escombros.

De repente Mister Parkinson apareceu e se tornou um árabe interno. A doença ora era um amigo, que acompanhava em tardes solitárias; ora um inimigo, que tentava traiçoeiramente derrubá-lo ao primeiro passo. Outra vez enfrentava um adversário. Como no deserto israelense, ficava parado, sentindo o medo de ser vencido, mas, no fundo, prevalecia a esperança que um dia tudo se acalmara.